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‘Qual a confiança que eu vou ter em um policial agora?’, diz avó de Cauã, no velório do neto

“A minha mãe está internada aqui no PAM de Irajá. Ela teve dois infartos, duas paradas respiratórias. Está em estado de choque, não vem para o enterro. O médico deu alta, mas pediram para só liberar depois das 17h, para podermos levar para casa. Mais um pouco eu perdia a minha mãe também” , disse a avó de Cauã

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Eleições Rodrigo Mussi Mega-Sena Imposto de Renda Rock in Rio ‘Qual a confiança que eu vou ter em um policial agora?’, diz avó de Cauã, no velório do neto Familiares dizem que Cauã foi atingido no peito por um policial militar ao deixar um evento que recebia crianças na comunidade do Dourado. Por Cristina Boeckel, g1 Rio

06/04/2022 11h11 Atualizado 06/04/2022

Perícia da Polícia Civil aponta que um tiro de fuzil atingiu Cauã

O corpo do adolescente Cauã da Silva dos Santos , morto nesta segunda-feira (4) após ser baleado na porta de um projeto social em Cordovil, será enterrado nesta quarta (6) no Cemitério de Irajá. O velório começou às 9h, e o sepultamento estava previsto para as 15h.

Durante o velório, a avó de Cauã, Edineize Cristina , lembrou que o sonho de Cauã era justamente se tornar militar “para defender os mais fracos da sociedade”.

“Qual a confiança que eu vou ter em um policial agora?”, questionou.

Cauã morreu ao ser baleado na Rua Antônio João , na comunidade do Dourado. O rapaz havia acabado de sair de um evento do projeto #Vemcer, que promove esporte por meio de lutas para jovens, e que acontecia na associação de moradores.

Vizinhos contaram que policiais chegaram atirando , o que provocou correria. Cauã, que estava com amigos, foi baleado e teve seu corpo jogado em um valão que fica perto da associação.

Ele foi resgatado por amigos e levado ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, mas não resistiu.

1 de 4 Parentes e amigos no velório de Cauã dos Santos, adolescente morto em CordovilFoto: Cristina Boeckel/g1 Parentes e amigos no velório de Cauã dos Santos, adolescente morto em CordovilFoto: Cristina Boeckel/g1

Edineize disse ainda que a família está despedaçada com a morte do adolescente.

“Meu neto trabalhava, estudava, fazia luta. Ele era querido por todos. A nossa família está despedaçada, dilacerada. E vou falar para você. Confiar na polícia, nunca mais”, afirmou.

Ela pediu que os policiais envolvidos na morte do neto não sejam apenas mantidos longe das ruas, mas sejam presos.

“Eu só peço à Justiça, ao governador, ao presidente, que punam, mas que punam de verdade. Não é tirar eles da rua. É tirá-los da rua e prender “, afirmou.

2 de 4 Cauã da Silva dos Santos, de 17 anos, morreu com um tiro no peito — Foto: Reprodução/ TV Globo Cauã da Silva dos Santos, de 17 anos, morreu com um tiro no peito — Foto: Reprodução/ TV Globo

A avó de Cauã destacou que as forças de segurança não estão preparadas para entrar nas comunidades.

Eles já entram atirando e não perguntam se você trabalha, se você estuda, o que você faz da vida. Eles já chegam atirando, como fizeram com meus netos”, declarou.

Além do velório do neto, Edineize lida também com a mãe internada. Bisavó de Cauã, Deise Rodrigues de Almeida , de 78 anos, teve três paradas cardíacas após a morte do adolescente.

“A minha mãe está internada aqui no PAM de Irajá. Ela teve dois infartos, duas paradas respiratórias. Está em estado de choque, não vem para o enterro. O médico deu alta, mas pediram para só liberar depois das 17h, para podermos levar para casa. Mais um pouco eu perdia a minha mãe também” , disse a avó de Cauã.

3 de 4 Tia de Cauã levou medalha que o sobrinho conquistou — Foto: Cristina Boeckel/g1 Tia de Cauã levou medalha que o sobrinho conquistou — Foto: Cristina Boeckel/g1

Uma das tias carregava no peito uma medalha conquistada por Cauã.

Segundo ela, a faixa laranja de jiu-jítsu , conquistada pelo sobrinho há três meses, ficou na calha onde o rapaz foi atirado .

A Secretaria de Polícia Militar afastou das ruas os policiais do 16º BPM (Olaria) que participaram da ação .

4 de 4 Cronologia da morte de Cauã — Foto: Wagner Magalhaes/Editoria de Arte g1 Cronologia da morte de Cauã — Foto: Wagner Magalhaes/Editoria de Arte g1

Quem era Cauã?

Cauã da Silva dos Santos, de 17 anos, saiu de casa na última segunda-feira para o Centro Esportivo Resgate (CER), na comunidade dos Dourados, em Cordovil, na Zona Norte do Rio. Ele era um dos atletas convocados para um evento do projeto, conhecido pelo lema #VemCER.

Através do #VemCER, Cauã queria se aperfeiçoar no jiu-jítsu e na luta livre e nutria o sonho de seguir a carreira militar. Ele também estudava e trabalhava num ferro-velho da comunidade.

A tia Juliana da Silva destacou o jeito brincalhão do sobrinho. “Era alegre, um meninão. Por onde passava, mexia com as crianças”, lembrou.